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Cooperativa de crédito: por que associar-se?

Tanto se fala que o cooperativismo é uma alternativa solidária para a constituição de uma vida melhor para milhões de pessoas. Mas o que liga, de fato, o cooperativismo a uma vida mais digna, mais justa, a um mundo melhor?

O cooperativismo, por definição, reúne valores e práticas que o vinculam a uma existência sustentável. Como movimento socioeconômico que visa ao bem-estar social cultiva, em essência, a democracia, a solidariedade, a independência e a autonomia. Trata-se, por assim dizer, de uma verdadeira filosofia de vida.

As pessoas são a referência no cooperativismo, que tem no capital apenas o respaldo operacional. As individualidades cedem espaço para a construção conjunta da prosperidade, independente de origem, cor ou credo de qualquer ordem. Os ganhos, obtidos com equilíbrio e isonomia pelo trabalho coletivo, são de todos.

Tais vantagens, todavia, considerando a dupla condição de associado (dono) e usuário, não se confundem com lucro, resultado próprio de empreendimentos cujo capital prepondera e está a serviço de poucas pessoas. As pessoas cooperam para satisfazer necessidades econômicas recíprocas, em diferentes campos, apreço justo e à luz de outros diferentes preceitos éticos.

Por sua inserção comunitária, de onde emergem, as cooperativas estão naturalmente vocacionadas para fazer o bem nos locais em que estão estabelecidas. Há uma preocupação de gerar progresso conforme a aptidão das populações e de acordo com o potencial econômico da região cooperativada.

Pelas mesmas razões, as cooperativas lideram inúmeras iniciativas de caráter sociocultural. Aliás, é difícil imaginar que um evento cultural, um encontro esportivo, uma mobilização para arrecadar fundos com propósitos humanitários não tenham envolvimento dos associados, dirigentes e colaboradores de alguma cooperativa. O apoio jamais se limita à simples entrega de fundos financeiros. Na maioria das vezes, a própria organização é confiada aos representantes das cooperativas.

A manifestação cooperativa pode assumir diferentes formas operacionais. A mutualidade, com efeito, envolve, como três grandes áreas de atuação, desde atividades de produção e comercialização até o oferecimento de itens para consumo e prestação de serviços nas mais diversas áreas profissionais, inclusive no setor financeiro, em que se insere o cooperativismo de crédito.

Nesse particular. A primeira pergunta que surge é: por que uma cooperativa de crédito, e não o banco convencional?

Bem, muitas são as razões que podem motivar alguém a fazer parte de uma cooperativa de crédito. Há os argumentos comuns ao cooperativismo em geral, já essencialmente aqui lembradas, e as próprias do segmento.
No que diz respeito a argumentos específicos voltados para o ramo, poderíamos iniciar lembrando que nas cooperativas de crédito, diversamente do que ocorre nos bancos, o destinatário das soluções é o próprio dono do empreendimento, o associado, enquanto que nestes a relação se estabelece com simples clientes. É aqui, possivelmente, reside a essência da distinção. Com efeito, é muito diferente o grau de preocupação, em satisfazer propósitos, de atender a demandas, numa relação da instituição com o usuário que é ao mesmo tempo dono do negócio (associado) do que num relacionamento descompromissado da empresa com mero cliente, que é apenas um terceiro. No caso das cooperativas de crédito, a desantenção com a expectativa do usuário gera conseqüências imediatas com os administradores e toda a equipe, enquanto que, a inconformidade de um cliente não passa do simples registro.

É daí que se pode afirmar que há mais flexibilidade e justiça no relacionamento negocial entre a cooperativa e seu associado. Há mais participação por parte de quem é o principal interessado. Como corolário, os produtos e serviços têm de atender à exata expectativa do usuário-dono, alinhar-se à sua vocação e às suas possibilidades econômico-profissionais, e o dimensionamento dos excedentes (lucro, no caso dos bancos) não pode extravasar o limite da necessidade de reinvestimentos (para a solidez e o crescimento da própria organização. Se passasse disso, teria de haver devolução para quem contribuiu, o que não tem o menor sentido! Nesse ponto aparece, com toda a nitidez, a singularidade societária, representada pelo “ato cooperativo”.

É por isso – pela adequabilidade e suficiência – que se identifica uma agregação de renda na “contramão”. Não há a perspectiva do lucro (que, aliás, é afastado por definição legal). Quem ganha não é quem detém o capital (visão da empresa), mas quem se vale das soluções concebidas em formato mutualista. E ainda falando em “ganhos”, é preciso sempre levar em conta os hipotéticos custos (e as hipotéticas receitas), caso o associado tivesse de valer-se das soluções convencionais do mercado.

Vem dessa reflexão o firme propósito d autoridade normativa no sentido de estimular o desenvolvimento do setor, cujos empreendimentos, além de geridos pela própria sociedade em seu próprio benefício, geram repercussão positiva no disciplinamento do mercado.

É certo falar-se, portanto, que os benefícios do cooperativismo de crédito ultrapassam, em muito, aos 3% do PIB financeiro do País. Seguramente, entre todas as instituições financeiras, pode-se sentenciar que as (boas) cooperativas constituem-se em referência no conjunto de fatores que combinam atenção aos propósitos dos usuários, participação destes na gestão (aspecto de maior relevância), envolvimento com as diferentes comunidades e públicos de interesse, precificação e outros aspectos relevantes da atividade de intermediação bancária. É dizer que uma é a realidade com a presença em notável progressão – das cooperativas de crédito; bem outra, no entanto, seria com a sua ausência. Ganham, assim, não apenas os associados, mas também os clientes. Ganha, enfim, a sociedade.

Em tal cenário, portanto, é que se situam os grandes apelos para o incremento do quadro de beneficiários do cooperativismo de crédito brasileiro. Estamos ainda no início de nossa jornada. Contudo, a persistir a opção pelo cooperativismo de crédito sadio (gerido com seriedade e competência) e empresarial (que propicia retorno econômico aos cooperados), especialmente o concebido em bases sistêmicas, com modelo de governança consistente e alinhado com as melhores práticas, estaremos ostentando representação bem mais significativa no campo da intermediação financeira em nosso País, melhorando, por conseguinte, a vida de mais e mais cidadãos e empreendedores brasileiros, secundando caminhada exitosa do cooperativismo de crédito europeu, asiático e norte-americano.

Autor:
Ênio Meinen – Vice-presidente de políticas corporativas da Confederação Sicred
Fonte:
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Série Desenvolvimento em Cooperativa
Produção:
Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop)
 

 
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